Postagens

Crise de fé

Imagem
Papai teve uma crise de fé uma vez. Passou a se chamar de "escritor não-praticante". Seus dois primeiros livros publicados foram bons, mas o terceiro foi particularmente excelente. Mudar para a Califórnia estragou tudo, e nós sabemos disso. Seus lábios envolveram a grande ereção de Hollywood e chuparam com força. Foi assim que seu livro genial, chamado "Deus nos odeia" acabou virando uma comédia romântica estúpida. E foi assim que nossas vidas começaram a desandar. Não é culpa de Los Angeles. E por mais que não seja culpa de minha mãe, meu pai perdeu sua musa. O trabalho de meu pai era simplesmente escrever, e ele dizia que escrever era como ter lição de casa todos os dias pelo resto da sua vida. Como eu me sentia quando lia seus trabalhos? Era difícil aceitar que tudo era verdade. As drogas, as garotas e o sexo, a raiva e a dor que ele sentia... Era um pouco invasivo, e meio desolador. Mas tudo foi muito pior na crise de fé. Se ele não escrevia nada, era porque não...

Essa sociedade

Imagem
Uma família tem um casal de filhos. Aparentemente, tanto menina como menino recebem a mesma educação; estudam na mesma escola, ganham o mesmo valor de mesada, recebem presentes de mesmos valores. Mas apenas a menina é incentivada a ajudar a mãe na limpeza e na cozinha, porque "ela deve ser prendada, para um dia fazer tais coisas para o marido". O garoto começa a namorar, e é encorajado pelo pai, orgulhoso de ter criado "um garanhão". Mas quando descobre que a filha também tem um relacionamento, logo começa com sermões e conversas sobre como se comportar. Ele passava horas no banheiro, e sua mãe ria e chamava isso de "fase dos banhos longos", que sua irmã, graças a Deus, jamais teve, porque menina não faz isso; não merece o prazer que o seu corpo pode lhe dar. Quando nova, a menina chorava ao ter o joelho ralado na brincadeira de rua; logo era consolada pelos pais, mas que a lembravam logo que esse tipo de brincadeira não era adequada para meninas. Quando o...

Drink up, sweet decadence

Imagem
O que eu ganho com isso? É o que eu venho me perguntando a cada ressaca e até hoje não encontrei resposta. Acordei no sofá-cama desconfortável da sala. Podia dizer que cheguei em casa tão mal que apenas me joguei no sofá e dormi, mas a verdade é que já faz algum tempo que não durmo no quarto. Por quê? Porque a lâmpada queimou há treze dias, e ainda não tive a decência de comprar outra e trocar. E é difícil pra mim confessar que estou esperando reunir coragem (ou perder totalmente a vergonha que me resta, como queira) para encarnar a donzela em perigo e pedir ao meu belo vizinho que faça uma gentileza. Meu corpo todo doía. Ainda estava de vestido. Ao meu lado estava a necessaire capotada com as maquiagens que havia usado ontem. Só não estava com dor de cabeça porque ainda estava entorpecida com as bebidas de ontem. Ontem tinha sido diferente. Ontem, pela primeira vez na vida, dormi com um estranho. Eu não estava me sentindo um lixo por causa disso. Eu não era exatamente uma moralista. C...

Vícios

Cigarros, meus queridos rolinhos de câncer. Um vício comum e arriscado. Pleno século XXI e ainda há quem veja glamour nessa porcaria. Estou incluída nesse grupo de boçais. Tenho plena consciência de que ao tragar levo 5000 substâncias tóxicas ao pulmão. Sei que o monóxido de carbono gruda na hemoglobina como chiclete no cabelo, e a consequência disso sou eu ofegante em meio lance de escadas. O pior de tudo é que tive exemplos em casa, mas alguns erros são cometidos de novo e de novo, e alguns de nós nunca aprendem. Sim, meus pais tiveram a infelicidade de viver seus 15 anos numa época em que o cigarro pós-coito parecia a melhor experiência que alguém poderia ter. Até hoje pagam o preço. Por que alguém se lançaria nessa dependência a ponto de almoçar sanduíche apenas para ter 6 reais a mais e sustentar o vício? Meus caros, a resposta é simples. Porque temos um neurotransmissor responsável pelas sensações de prazer e bem-estar, a acetilcolina, e parece que vem falhando miseravelmente pr...

Just Sixteen

Assustador, inaceitável, pouca-vergonha, absurdo, sujeira, sacanagem, paradoxo. Amor. Não consigo acreditar que com 35 anos de idade caminhava para minha cama levando no colo uma garota de 16 anos, completamente bêbada. Mas tão linda... O lábio inferior curvado a guisa de sorriso, os dentes da frente ligeiramente maiores, o cabelo comprido bagunçado, a maquiagem borrada... Essa beleza suja me enlouquecia. Ela estava linda antes de sairmos, com salto alto, maquiagem e cabelo impecáveis, mas agora estava incrível. Eu não sabia mais separar nela o que havia de menina e o que havia de mulher. Julie era minha aluna, e garanto que aprendeu muito mais do que história comigo. Eu sei que isso quintuplica toda a problemática do nosso caso, e eu sei o quanto isso soa horrível, mas garanto que não era. Eu já fui casado, eu sou um cara relativamente sério, e não é como se eu procurasse garotas com menos da metade da minha idade para usar. Eu realmente gosto da Julie. Ela chamou minha atenção log...

Machos Covardes

Jaqueta de couro, jeans rasgado, cigarro na mão e guitarra nas costas. Assim, Taylor se aproximou de um aglomerado na frente do colégio. Era uma briga. E pelos cálculos, três contra um. Se algo deixava Taylor irritado era esse tipo de covardia. - O que está acontecendo? - perguntou e tragou seu cigarro. Um dos garotos já havia feito parte de uma banda com Taylor. Ele segurava a vítima da briga pelo braço. Explicou-se: - Essa “bichinha” estava insinuando coisas. Por acaso eu tenho cara de quem gosta de homem? Taylor não respondeu. Ele mesmo não tinha "cara" de nada, de modo que jamais alguém desconfiaria. Há dias se perguntava o que aconteceria se simplesmente assumisse seu relacionamento com Jimmy. Ver aquela briga lhe deu uma resposta. Acontecimentos como o que presenciava agora já eram comuns no colégio e na cidade, e infelizmente apoiados por quem deveria fazer justiça. Nunca se esqueceria de quando um de seus professores tomou o partido de um homofóbico em situação se...

Maybe

- Você pode mudar sua aparência, seu jeito de vestir, seu endereço e seu telefone. Pode se afastar das pessoas e até mudar de nome. O problema é que as memórias são clandestinas incansáveis. Ele concordou silenciosamente. Estavam sentados em um banco no píer. Aquela era uma praia praticamente deserta, perfeita naquela parte do dia em que o sol não era tão forte. O vento brincava com o longo cabelo vermelho da garota, trazendo ao homem ao seu lado perfume e muitas lembranças. Ele entendia perfeitamente o que ela queria dizer. Nenhum dos dois precisava verbalizar alguma coisa, porque ambos sabiam. Mas ela se sentia melhor quando encontrava palavras para seus sentimentos, e ele estava se mostrando um bom ouvinte. Ela continuou. - Eu já estava fugindo quando te conheci. Na minha ansiedade de me livrar da inércia de cidade pequena, parece que engoli o mundo numa colherada só. Foi um alívio saber que outras pessoas também tinham sonhos, e fariam qualquer coisa por eles. Por isso eu te apoi...