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Mostrando postagens de 2014

Here's your letter

Oi, pai. Hoje faz um ano e meio que não lavo seu carro. Sei disso porque faz um ano e meio desde que consegui a habilitação. Também faz um ano e meio desde que você se foi (ou o carro não estaria nesse estado). Muita coisa aconteceu nesse meio tempo e fico imaginando como reagiria a todas essas mudanças. Pra começo de conversa, não foi apenas seu carro que destruí; sua camiseta do Metallica está há dois dias de molho em um balde. Fiz de tudo para salvá-la, mas acho que as manchas de tinta não sairão. Não acho que você vá se importar, porque são as marcas que você sempre quis ver em mim. Sim, agora sou oficialmente uma acadêmica de medicina. Vou cuidar do coração das pessoas, como você disse que seria bonito fazer quando eu tinha seis anos de idade. Se eu ligasse te contando que finalmente passei no vestibular, você ia dizer: eu já sabia. Ainda tenho a folha de caderno que você deixou em cima da mesa da cozinha três anos atrás, antes do meu primeiro vestibular. Está escrito ass...

Retrato de um verão dos anos 90

Voltar à casinha de Paula Pereira foi como olhar uma fotografia em sépia da minha infância. A propriedade de meus falecidos pais era chamada pela família de "rancho" e foi lá que passamos boa parte dos verões nos anos 90. Estive lá para dar uma última olhada na casa antes de vendê-la. Ao abrir o galpão, como era esperado, vi o barco de meu pai. Mas o que me surpreendeu foi encontrar minha canoa inflável, agora flácida, furada e empoeirada numa prateleira. Naquele instante, lembrei-me do dia em que descobri pelo rádio que havia ganhado o brinquedo num sorteio do mercado local. Gritei e comemorei ao saber que era o mais novo dono da canoa verde, junto com seu remo amarelo e um colete salva-vidas. Na minha inocência de menino, mal podia esperar para navegar até a China (já que não havia conseguido chegar até lá escavando a terra do jardim), e queria começar a viagem no rio Iguaçu, que corria em frente ao rancho. E foi o que fiz no domingo da mesma semana, quando fomos à Paula ...
Você é um cigarro. Eu podia desenvolver essa metáfora de maneira rasa e óbvia: você é uma droga e vicia. Você é gostoso, mas me faz mal e provavelmente vai acabar me matando. Mas tentando fugir um pouco do óbvio, diria que a primeira vez que te experimentei, você era igualzinho um Marlboro vermelho. Sem nunca ter fumado antes, devia saber que seria melhor começar com algo mais suave, como uma essência de morango para o narguilé, mas não. Parecia tão fácil levar o cigarro aos lábios e depois devolver a fumaça que eu não sabia como poderia ser traumático. Marlboro vermelho foi o primeiro e aconteceu o esperado: eu me afoguei e tossi. Eu fui contra todo o bom senso e as advertências do Ministério da Saúde e te experimentei. Não posso reclamar que ninguém me avisou: fumar causa câncer de laringe. Câncer de pulmão. Necrose. Impotência sexual. No fundo eu sabia tudo aquilo que você me causaria: a frustração, a ansiedade, o ciúmes, a percepção de que o outro tem vontade própria que independe ...
Ele se virou de costas para a garota, de forma que mesmo estando em uma cama de solteiro, seus corpos não se tocavam. Ela encarou o teto, pensando no que havia feito de errado. - Cara, sei lá, dá muito sono depois de gozar. Sabe como é? - Não, não sei - respondeu ela, virando de costas para ele também.

Cloro, urina e lágrimas

Disseram pra mim que Freud dizia que a vida é uma repetição da infância. Não sei se ele disse isso, porque da autoria dele conheço apenas um livro e alguns xerox da faculdade. Na verdade, pouco importa se ele disse ou não; eu estou dizendo agora com base na minha vivência. Talvez isso não resulte em um artigo acadêmico de grande contribuição para a psicologia, mas tenho certeza de que sou um estudo de caso interessante para a minha terapeuta. Afinal, se é verdade que vivemos ciclos repetitivos da aurora de nossas vidas, hoje estou vivendo um dia nublado dos meus cinco anos. É o primeiro sábado das férias, e a minha sorte de ser uma criança esquisita é também ser mimada. Explico: duvido que teria "amigos" caso não tivesse uma piscina em casa. Se amigos fossem insetos polinizadores, a piscina seria uma flor com pétalas e sépalas espalhafatosas. Se amigos fossem saprófitos, a piscina seria como um animal morto. Se amigos fossem como o polo sul de um ímã... OK, vocês entenderam....